“Enquanto a cidade dorme, os amantes da noite consomem angu”

(Revista Cruzeiro de 23/10/1974).

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Em 1760, o então Vice-Rei do Império, Marquês do Lavradio, decide transferir o mercado de escravos da Praça XV para onde hoje ficam os bairros da Gamboa, Santo Cristo e Saúde, região que mais tarde abrigaria o Porto do Rio. São exatamente esses escravos africanos que trazem o angu para o Brasil.

Descrito pelo pintor francês Debret – aqui a serviço da Corte Portuguesa – como iguaria suculenta e gostosa, o angu, prato forte, de alto valor nutritivo, se integra rapidamente à culinária nacional.

Em 1955, o português Gomes tem uma grande idéia ao iniciar a comercialização dessa poderosa iguaria através de carrocinhas de angu pelas ruas cariocas. Dez anos depois, com a morte do velho Gomes, Basílio Moreira, também português, que desde menino ajudava o pai em seus restaurantes, abandona a sociedade com a família para, junto a João Gomes, transformarem o comércio iniciado na década anterior pelo pai de João em negócio ainda mais próspero.

E é no Largo de São Francisco da Prainha, na Saúde, que, em 1977, inauguram um restaurante para fomentar um projeto de expansão, imprimindo um novo ritmo de produção de cozinha industrial ao processo. Eram cerca de 300 funcionários, 40 carrocinhas espalhadas pela cidade e uma média de mil refeições diárias. Diante de tamanho sucesso, a marca virou até verbete, inscrita no Pequeno Dicionário de Gastronomia (Objetiva):

“ANGU DO GOMES. S. m. Prato popular e típico da paisagem carioca, geralmente vendido nas ruas, em carrinhos próprios. É uma papa de farinha de milho, servida com carne ensopada com miúdos.”

Bom e barato, por mais de duas décadas as carrocinhas representaram um democrático espaço de convivência: ricos e pobres, universitários, prostitutas, apontadores do “bicho” e intelectuais, as mais diversas camadas da sociedade reuniam-se para compartilhar um pratoque representava um símbolo de resistência do Rio Antigo.

Além de assistir à bohemia, como a opção das madrugadas cariocas, servia de inspiração para movimentos musicais. Conta a história que Sérgio Mendes, Tom Jobim e o produtor musical Armando Pittighani se encontravam com freqüência na Praça XV para comer o angu na famosa carrocinha. Segundo o produtor, foi dessa união entre músicos e angu que nasceu o que veio a ser chamado de samba-jazz.

Basílio, aos 79 anos, relembra histórias curiosas acerca do angu. O Presidente Juscelino Kubitscheck, sempre que vinha ao Rio, encomendava a ele o angu, que era feito em panelas de aço inox.

“Mandei fazer só para servi-lo.” A fama de alimento ideal para um dia duro de trabalho ou uma boa noitada – já que, para Basílio, “o angu dá sustância, aquece, preenche e levanta”, é confirmada pelo milionário Jorginho Guinle, que garantia que o Angu do Gomes era afrodisíaco.

O engenheiro agrônomo Ruy Gripp também afirma que, por seu significado nutritivo e econômico, deixar de comer angu é um triste registro de decadência alimentar no Brasil.

“Enquanto você vai com o fubá, eu já estou voltando com o angu!”

O Restaurante ANGU DO GOMES está de volta no mesmo local que, de mercado negreiro, se transformou em centro de bohemia, palco das primeiras rodas de samba e de capoeira do Rio. A intenção é unir boa comida à boa música, tudo sob a batuta do velho Basílio, presidente de honra da CASCA – Confraria dos Amigos do Samba, Chro e Angu, ajudando a recuperar a memória gastronômica, identitária e cultural de nossa cidade.